A Sociedade Portuguesa de Reologia presta homenagem à Professora Doutora Maria da Graça Rasteiro, recordando com profundo pesar a sua partida e com gratidão o seu contributo científico, académico e humano.
Ao longo de cerca de cinco décadas dedicadas ao ensino e à investigação na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, destacou-se na Engenharia Química, em particular na Tecnologia de Partículas e nos Processos de Floculação. A sua ligação à Reologia traduziu-se também num contributo ativo para a nossa comunidade, nomeadamente através da liderança da comissão organizadora do IBEREO 2015, realizado em Coimbra.
Para além do seu legado científico e do exercício de importantes responsabilidades institucionais, permanece a memória de uma professora e investigadora determinada, frontal e generosa, profundamente empenhada na formação e no apoio às novas gerações.
À família, aos amigos e aos colegas, a Sociedade Portuguesa de Reologia expressa as suas mais sentidas condolências.
Publicamos, de seguida, os testemunhos de Luís Alves e de Solange Magalhães, que partilham memórias do trabalho e da convivência com a Professora Graça Rasteiro.
Conheci a Professora Maria da Graça Rasteiro há não muitos anos, durante uma entrevista. Apesar de a nossa colaboração não ter sido muito longa, foi de uma intensidade tal que marcou, e continuará a marcar o meu percurso, tanto na vida científica como pessoal.
Academicamente, a Professora Graça Rasteiro dedicou toda a sua vida à Engenharia Química, com especial destaque para a tecnologia de partículas, área em que foi pioneira em Portugal. Ao longo da sua carreira, dedicou também tempo significativo a outras disciplinas, como a Reologia, tendo, por exemplo, liderado a comissão organizadora do 5th Iberian Rheology Meeting, IBEREO’15, realizado em Coimbra (Portugal). Enquanto Professora do ensino superior, o seu percurso pautou-se pelo brio, rigor e empenho na transmissão de conhecimento aos seus alunos, em todos os níveis de formação. Reconhecendo o seu impacto científico e técnico, foi empossada como membro da prestigiada Academia de Engenharia, distinção que sublinha a relevância do seu trabalho e a sua influência além-fronteiras.
A sua constante disponibilidade e incentivo, sobretudo às pessoas ainda em início de carreira, bem como a sua luta incansável por melhores condições para os investigadores, marcaram profundamente o seu percurso. Fez parte de listas para órgãos de direção da FCTUC, exerceu cargos de direção no Departamento de Engenharia Química, no centro de investigação e no Instituto Pedro Nunes, onde defendeu, com firmeza, melhores condições de trabalho e maior estabilidade para os investigadores.
No entanto, foram as suas características pessoais que mais me marcaram. Destaco, em particular, o seu sentido de justiça e a sua frontalidade, que foram sempre a sua imagem de marca.
A partida precoce da Professora Graça deixa um vazio no nosso laboratório e no Departamento de Engenharia Química da Universidade de Coimbra. Mas deixa-nos também um legado e um forte incentivo para continuarmos, e levar para a frente a investigação no laboratório que ela ajudou a construir. Mesmo não estando fisicamente presente, estará sempre connosco nas nossas memórias e será sempre um grande incentivo para nunca desistirmos das nossas convicções.
O meu muito obrigado por toda a partilha. Foi, de facto, um privilégio. Um até sempre.
Luís Alves
Professora Graca,
Se há tarefa que considero difícil, é a de falar da minha Professora Graça, não por não haver o que dizer, mas pelo duro motivo de o estar a fazer.
Aventureira e desafiadora, partiu sozinha para Inglaterra, num tempo maioritariamente de homens, para aprofundar os conhecimentos junto do Professor Brian Scarlett, o orientador de quem tanto falava e a quem sempre atribuiu o hábito de nos levar a todo o lado e de nos apresentar a todos, exatamente como ela viria depois a fazer com todos nós. Regressou de Inglaterra com um carro em segunda mão, para se tornar, em Coimbra, a primeira mulher doutorada em Engenharia Química e uma das pioneiras da área em Portugal, reconhecida mais tarde como membro da Academia de Engenharia, tendo introduzido em Coimbra o campo da Tecnologia de Partículas.
A partir daí, construiu uma carreira, uma brilhante carreira, sempre rodeada de alunos e de partículas, reologias, escoamentos, balanços, modelações, entre muitas outras coisas, sempre com aquele “mau feitio” que dizia ter, e que nós traduzíamos em personalidade e segurança. Como dizem, “a sorte que vocês têm!” — e tivemos, de facto, porque bem reconhecemos que, se houve alguém que nos desafiava todos os dias, que nos ajudava a superar, que nos escutava no mesmo patamar e nos protegia com todas as suas forças, foi a Professora Graça Rasteiro.
Foi, desde o início, uma verdadeira orientadora para mim. O seu entusiasmo era tal que se tornava impossível contrariá-la, até porque, se havia alguém que acreditava genuinamente nos outros, era ela. E é por tudo isto que lhe devo tanto, e sinto um orgulho imenso por ter tido o privilégio de consigo ter trabalho.
É muito difícil falar de quem fez tanto por nós e cuja falta se sente tão profundamente. Nas últimas vezes que conversámos, pediu-me para deixar de a mencionar nos meus trabalhos, e eu respondi que isso seria impossível e inegociável. E volto a dizê-lo: é inegociável deixar de colocar a sua marca em tudo o que faço, porque, tal como ela aprendeu com o seu orientador, também eu sempre ambicionei herdar isso dela. Foi, e será sempre, uma inspiração para mim: pela sua dedicação, pela sua generosidade, pela sua frontalidade, pela sua determinação, e por se sentir verdadeiramente feliz com o brilho dos outros.
Solange Magalhães

